AQUILO QUE ESTÁ POSTO NOS 371 ANOS DE SOROCABA

 Pedro Carvalho

Em todo agosto somos inundados de textos pretenciosos sobre a cidade de Sorocaba em que seus autores se tornam pretensos historiadores capazes de dar sentido ao passado da cidade e indicar nossos caminhos futuros.

A forma dos textos segue sempre os mesmos lugares-comuns: relembram o passado bandeirante, tropeiro e industrial de Sorocaba, mas destacam que tivemos, também, indígenas, mulheres e negros vivendo na cidade. Sobre isso há duas indicações importantes a serem feitas: primeiro, que esses termos “indígenas, mulheres e negros” aparecem sempre como uma abstração, grupos unívocos, nunca como pessoas concretas que de fato agiram para a construção da cidade.

Em segundo lugar, separar “indígenas, mulheres e negros” – palavras que dizem respeito à identidade, seja racial ou de gênero – de “bandeirante, tropeiro e industrial” – palavras que falam não sobre identidade, mas, em último caso, sobre a atuação dessas pessoas – desconsidera que é impossível falar séria e criticamente sobre bandeirantismo, tropeirismo e industrialização sem discutir de forma interseccional essas categorias. É a isso que deveria se deveria se propor uma boa historiografia, que considera a agência simultânea e ativa de todos os grupos sociais que formam uma localidade.

Nesse sentido, as intenções de alguns grupos que pretendem contar a história da cidade ficam claras quando uma nova entidade se forma na cidade e propõe seu primeiro evento: refiro-me à GIA União Cultural, coletivo que reúne o  Gabinete de Leitura Sorocabano, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba e a Academia Sorocabana de Letras que no dia 22 de agosto promoveu um evento chamado “A Identidade Cultural Sorocabana”, em que se  pretendia discutir bandeirantismo, tropeirismo, agricultura, ferrovia e industrialização¹. Ora, seria possível a identidade de uma cidade se resumir unicamente a caracteres econômicos de sua história, desconsiderando a ação de sua população de forma plural? Será que são esses caracteres que definem culturalmente a cidade que de fato vivemos diariamente? É o que parece indicar a mesa do evento, totalmente formada pelo grupo mais representativo da sociedade sorocabana: homens brancos.

Mas se por um lado ainda precisamos comprar a briga de uma história mais justa e verdadeiramente plural, a cidade vivida respira diariamente a resistência de sua gente pela memória e história: a Associação Cultural de Fomento à Arte e Memória, que semanalmente desenvolve feiras pela cidade que, por um lado, incentivam a economia criativa, e, por outro, trazem à tona a discussão sobre os lugares de memória de Sorocaba; e pesquisadores que, de forma séria e com método, pensam a cidade de forma plural e crítica a cidade – e peço licença para citar aqui um livro coorganizado por mim: Pensar e Repensar Sorocaba: uma visita crítica à história da cidade, publicado pela Cubile Editorial, que conta com uma excelente reunião de textos sobre nosso município.

Nessa mesma toada, encontra-se a CTM Viva Nhô João de Camargo, formada a partir da tragédia de janeiro de 2024 que destruiu parte da Capela Senhor do Bonfim, e que agora luta pela preservação do patrimônio e legado de João de Camargo e pelo reconhecimento devido daquele espaço: como parte da memória do povo preto Sorocabano

Nesses exemplos, a história não é algo a ser alcançado no futuro, mas algo palpável, vivido e pensado no presente. A história, recuperada de forma plural tanto nos temas quanto naqueles que a pensam, deixa de ser uma abstração que coloca na mesma falsa unidade grupos variados e passa a ser pensada de forma totalizante e crítica. Ou, em outras palavras, a história deixa de ser resumir a anedotas e curiosidades e passa a dar, de fato, sentido ao passado para todas as pessoas que vivem em nossa cidade.

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Pedro Carvalho é membro da CTM Viva Nhô João de Camargo. Historiador formado pela Universidade de São Paulo, mestre em História Social pela mesma instituição. Atua desde 2017 em instituições de memória. É editor da Cubile Editorial e coautor do livro Pensar e Repensar Sorocaba: uma visita crítica à história da cidade. 



¹ Conforme a divulgação do evento: https://www.instagram.com/p/DNqWD9SR-Nr/

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