CAPELA JOÃO DE CAMARGO - ENTRE O SAGRADO E O PROFANO– DO RACISMO RELIGIOSO AO RACISMO INSTITUCIONAL

sagrado é todo e qualquer objeto (abstrato ou concreto) ao qual se atribui um poder, uma força sobrenatural capaz de realizar aquilo que os homens julgam impossível e de interferir ou, até mesmo, comandar os acontecimentos naturais.

É exatamente diante de um cenário tão singelo, com uma paz tão poderosa, que se constituiu por intermédio de João de Camargo, a Capela Senhor do Bonfim João de Camargo, ou carinhosamente para alguns “Nhô João de Camargo", de modo que, a sua Biografia e seus feitos são inúmeros e merecem todo o nosso respeito.

Tamanho respeito e reconhecimento, que se tornou objeto de ação de tombamento pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico, Turístico e Paisagístico de Sorocaba, através do Decreto de Tombamento 9.883/1995, ou seja, tornou-se, pelo menos no papel, um patrimônio histórico, artístico, arquitetônico, turístico e paisagístico da cidade de Sorocaba.

Mas, 29 anos se passaram, e aquele espaço sagrado, vem sistematicamente sendo profanado, por todos aqueles que direta e/ou indiretamente deveriam garantir a preservação do local, e consequentemente, todo o acervo de obras e documentos, o respeito a memória de João de Camargo.

Diante, de toda a situação recentemente vinda à tona, mais precisamente e escandalosamente apresentada em decorrência das chuvas ocorridas no início de 2024, ficamos diante do resultado, das sistemáticas ações, ou melhor dizendo, da falta de ações, que contribuíram para a profanação da Capela João de Camargo.

Sim, isso mesmo, a Capela João de Camargo foi profanada, sofreu sistemática violação, desrespeito à sua importância enquanto Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, e o que é mais grave ainda pelo Poder Público e indiretamente por aqueles, que em sua existência institucional lhe deviam respeito e cuidado exemplar, sejam estes os Conselhos de Politicas Publicas, sejam as Associações e/ou Organizações da Sociedade Civil.

29 anos se passaram, e em pleno mês de maio de 2024, quando equivocadamente à sociedade celebra os 136 anos da Abolição da Escravatura, e sendo coincidência ou não, nos vemos diante como dito anteriormente, da profanação institucionalizada do espaço sagrado de Nhô João de Camargo, ex escravizado, que após importante contribuição para a sociedade, faleceu em 1942.

Ficamos aqui a questionar para identificarmos as armadilhas do Racismo Institucional manifestada das mais diversas e sórdidas formas, que contribuíram para que a Capela Nosso Senhor do Bonfim (Capela de João de Camargo) chegasse a esse patamar de desrespeito e falta de atenção por parte do Poder Público?

João de Camargo, nos deixou um legado de respeito ao próximo, nos deixou um legado em que ritos de diferentes Matrizes Religiosas podem e devem conviver em harmonia, ele não merece isso, o Povo Preto não merece vivenciar esse total desrespeito.

Conclamamos aos Movimentos Negros da cidade de Sorocaba, aos Movimentos de Matrizes Religiosas, aos Conselhos de Políticas Públicas, as Associações, e toda a Sociedade, a se juntarem a nós, nesta ação pela Manutenção e Preservação da Capela de João de Camargo. E também pela responsabilização daqueles que devem e deveriam ter desenvolvido ações para que esta profanação não ocorresse.

O crescimento urbano, não pode ser justificativa para o abandono, não podemos permitir que apaguem a história e o legado de um homem preto, ex escravizado, liderança negra que produziu uma rede de proteção e um território de negritude, a partir de distribuição territorial outra, nesta cidade de Sorocaba.

Viva João de Camargo!!

Viva a Capela Nosso Senhor do Bonfim!!

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