O MÊS DE JULHO DESCORTINANDO A ESPERANCA, E NOVAS POSSIBILIDADES!

O mês de julho já caminha para o seu final, e não poderíamos deixar de registrar o quanto ele é emblemático pois nos provoca muitas ações e reflexões.  

Julho, tem essa característica de revisão, de ajuste e de reformulação. Um mês propício para uma pausa e para uma avaliação que nos motiva ao pensamento e a reflexão, um olhar para dentro, para se permitir sentir e evoluir: carrega a força da confiança em novas oportunidades e na realização de projetos. 

Julho também é o mês de celebração ao nascimento de Nhô João de Camargo, mais precisamente em uma fazenda na cidade de Sarapuí/SP, aos 5 dias do julho de 1858. Crescido no meio rural, Nhô João não teve acesso à educação escolar. Analfabeto, veio para Sorocaba, já na condição de ex escravizado. Desencarnou em 28 de setembro de 1942 e foi sepultado no Cemitério da Saudade. 

Em um mês que antes mesmo de seu fim já é passível de uma triste retrospectiva com crises políticas internacionais, tragédias, guerras e desastres naturais, é possível se ter esperança? A resposta é: sim! Pois a história de vida e de feitos de Nhô Joao de Camargo nos enche de esperança. E o que é a esperança?

ESPERANÇA (isso mesmo com letras maiúsculas) é o sentimento de quem vê como possível a realização daquilo que se deseja apenas com sua fé, sem precisar ver, apenas sentir e crer.

Celebrar o nascimento de João de Camargo é reconhecer que ainda temos e cultivamos a esperança para um mundo melhor, onde haja respeito as diferenças, onde o sincretismo religioso praticado por ele seja aquela linha no horizonte de inúmeras possibilidades.

Ainda em julho, nessa perspectiva de possibilidades, foi realizado no SESC/Sorocaba um encontro-debate sobre a Identidade Negra no interior do estado, trazendo como estrutura a importância histórica de João de Camargo, o Samba de Bumbo de Matriz Africana, e as ações em especial desta Comissão de Trabalho Mista, nesta luta contemporânea e de incidência política de reocupação de territórios negros, que se traduz na missão e objetivos da CTM Viva Nhô João de Camargo.

De iniciativa do grupo de estudos Baobá, o encontro ocorreu no último dia 19, e contou com a presença da antropóloga e professora Vanda Aparecida da Silva (UFSCar-Campus Sorocaba) e do professor Wellington Ataíde (Baobá – Grupo de Estudos Negros de Sorocaba-SP), e para elucidar as dimensões estéticas do samba de bumbo, esteve presente o pesquisador João Mário Machado. 

De maneira didática, o mediador e integrante do Grupo Baobá, Daniel Azevedo abriu o evento fazendo um resumo da trilha que foi traçada até a chegada naquele encontro e o que os expectadores iriam ouvir durante as falas.

Representando a Comissão de Trabalho Mista - Viva Nhô João de Camargo, o ativista do Movimento Negro, e integrante da Comissão de Trabalho Mista, José Marcos de Oliveira rememorou a anunciada tragédia ocorrida em 2024 que atingiu a Capela Senhor do Bonfim para explicar o surgimento da CTM - Viva Nhô João de Camargo. José Marcos fez questão de compartilhar todos os objetivos que a comissão almeja, explicou a forma como ela trabalha e fez o convite para todos se unam a causa, agregando forças para a valorização, manutenção e preservação da Capela, que acima de um ambiente ecumênico, é uma territorialidade negra e um patrimônio cultural e histórico de nossa cidade.

Wellington Ataíde fez sua abertura frisando que “Sorocaba sempre foi território em disputa, principalmente a área onde a Capela Senhor do Bonfim ainda resiste, bem como todo um contexto histórico sobre a vida de Nhô João desde o seu nascimento até sua morte e como sua presença neste plano terrestre ainda reverbera na cidade. Ataíde fez questão de enfatizar os preconceitos sofridos por João de Camargo enquanto um corpo preto em um cidade tão racista e higienista que Sorocaba foi e ainda é. Em contrapartida, o pesquisador fez grandes ponderações enaltecendo o poder de resistência de Nhô João em suas lutas contra a sociedade hegemônica de sua época para a formação de um território negro sorocabano.

“Encantamento”. Essa foi a palavra que a antropóloga Vanda da Silva utilizou para resumir aquele momento que ela estava vivendo. Vanda comentou que sua vida mudou após vir residir em Sorocaba e conhecer a vida e a obra de Nhô João. A professora refirmou a importância do resgate da cultura afrobrasileira na cidade por meio dos estudos em relação a Nhô João. Estudos estes que recentemente chegaram a Portugal e despertaram a curiosidade de pesquisadores que com a intermediação de Vanda, estão fomentando futuras pesquisas sobre a figura de Nhô João e a representatividade da capela.

O pesquisador e percussionista da cidade de Santana do Parnaíba, João Mário Machado presenteou os expectadores com falas que fizeram conexões entre a luta contra a sociedade hegemônica e a intolerância religiosa de ambas a cidade. Elevando a figura de Nhô João a uma Inquice – divindades de origem banta, originárias de Angola e cultuadas nas nações Congo e Angola – e um “Orixá em terra”, João Mário pontou semelhanças entre a resistência de Nhô João e a de outros ancestrais paulistas que lutaram (em muitos casos perdendo a própria) por espaços a serem preenchidos por eles e seus pares.

A CTM vê essa atividade como um grande encontro de potência, significado e trocas de energias, não apenas pela celebração do aniversário de Nhô João mas também por levar a sociedade civil à reflexão, ao senso de proteção e à luz interior. 

Julho traz a solidariedade e a confiança como meio de conexão com o divino, a identificação de emoções e de valores pessoais e humanitários, a obtenção de novos conhecimentos e o desenvolvimento de mudanças profundas: estimula a lealdade ao propósito de vida.

Desejamos que esse início de semestre seja assim: carregado de esperança, fé, resiliência e felicidade assim como foi e é a representação de Nhô João de Camargo não apenas aos Sorocabanos mas para toda uma sociedade que cada vez mais precisa de leveza e ESPERANÇA.


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